segunda-feira, 29 de outubro de 2007

LOURIVAL COMPRA A VERDADE

PRÓLOGO
Tava distante o Lourival. Andando no centro entre tanta gente e não vendo nada. Na zona onde morava era conhecido como um desligado sem conserto. Certa vez foi assaltado e nem ao menos percebeu. “Fizeram de tudo”, diziam as línguas mais apimentadas. Foi no bar do Brutus e bebeu pra mais que as contas. Tava alto quando disse:
- Fecha aí.
Chega o Brutus com a quantia anotada em um papel. Larga a conta na mesa. Lourival pega a dolorosa. Engole em seco. “Me passei”. A carteira no bolso, a mão descendo. Puta. Cade a carteira? E todo mundo sabe que o Brutus não faz fiado nem pra mãe dele. E que o apelido também não era de graça. O Brutus lambeu os beiços.
E lá no centro, mais um entre tantos transeuntes, um velho, o seu Gilberto, que não conhecia o Lourival passou por ele e pensou: esse tá noutra. O desapego à matéria do sujeito era tal que o fazia estar somente com o corpo nesse mundo. Foi no centro da cidade, no meio das barraquinhas dos camelôs, que entre o seu palpável nada, Lourival ouviu o grito:
- Olha a verdade. A última unidade do maior bem do mundo.
Lourival, como que entrando nos encantos de uma magia, acordou. Seus olhos brilham e focam o vendedor: Um negro muito magro, com poucos dentes e olhar agudo. Lourival pergunta:
- Quanto custa?

REVELAÇÃO
O negro toma um susto. Nunca ninguém acreditara no seu negócio. Uma vez, quando ainda era um negão, jovem e forte, trabalhava nas docas e namoricava Rosinha, comprou a verdade de um velho cego. Achou que era um bom negócio. Foi tudo muito legal, tudo muito bem. Até descobrir que tinha se tornado um escravo dela, a verdade. Virou um chato. Perdeu o emprego, as mulheres e então os amigos.
De repente se pegou invejando aqueles que mentem. Descobriu que só eles, os mentirosos, podiam reinventar a existência. Eram livres para ser o que bem entendiam. Passou a vida inteira tentando vender a verdade, passar aquele carma para algum desavisado. Nunca ninguém acreditou. E o preço era salgado mesmo:
- Quinhentos contos.

Lourival admirou o negro por um momento. O Dono da Verdade. Com certeza o preço não permitia pechincha. Era pegar ou largar. Fez as contas mentalmente. Desligado sim. Burro nunca. Todos diziam que o Lourival era imprestável, um incapaz. Mas não pense que ele não roubava lentamente a sua velha mãe. Eram trinta pilas toda a semana. Já fazia tempo que ele tirava do dinheiro dos remédios da dona Inês e guardava numa lata de sorvete na geladeira. Lá em cima, onde a velhota já não alcançava. Mas a quantia ainda não era suficiente:
- Fechado.
Até mesmo Lourival se surpreendeu com sua resposta. Então o negro sorriu com seus poucos dentes e falou inflamado de segurança:
- Amanhã, às dez da manhã, nesse mesmo lugar.
E agora, o que faria pra conseguir a grana que faltava? Puro pseudo-teatro. No fundo já sabia. Conhecia a rotina da velha. Engraçado: não é que Lourival de desligado não tem nada? Roubou a “velhota”, como gostava de chamar. Riu ao pensar no pavor da pobre dona Inês ao chegar na farmácia, abrir a bolsa e perceber: O dinheiro sumiu!

MANHÃ SEGUINTE
Todos conhecem os camelôs. Toda cidade tem os seus, concentrados em algum canto do centro. Qual empregada doméstica que se preze não se tranca na cozinha chorando e ouvindo a Palavra da Fé, enquanto lava as louças? Em um radinho a pilhas comprado, é claro, nas bandas do camelô. O que Lourival e o negro dono da verdade pareciam não conhecer era a dinâmica dos mercados informais. Então quando batiam os sinos anunciando a missa, Lourival pensou: quase dez horas. Apertou o passo e avistou o camelô. Chegando ao local combinado percebeu, então, que não era o mesmo lugar. Tudo mudara. Todas as referências espacias tinham escambado de lugar. As cores eram outras. Estava perdido. O que ele e o Dono da Verdade não varam em conta é que ali estava um mundo sem mapa. Um cenário que mudava dia pós dia. “Nômades”, pensou. “Querem me boicotar!”. Levantou a cabeça, irredutível. Quem olhava percebia que aquele homem procurava algo. Já era quase dez da manhã e nada. Dez horas. Dez e cinco. Dez e quinze. Ele esperou até desistir. Tava bom demais mesmo… Nunca experimentaria o gosto da verdade. Morreria sem ver as cabeças balançando e os beiços contraídos em ar de aprovação. Foi embora cabisbaixo, perdendo-se progressivamente em seu mundo.
Foi quando esbarrou em um homem negro.
- Já desistiu?
Lourival olhou para o negro com surpresa. Será que era ele? Estava diferente. Devia ser a dentadura. Mas também o terno bem cortado, daqueles de domingo.
- É você?
- O Dono da Verdade.
- Te procurei em tudo que é canto desse camelô e não teve jeito de te encontrar.
- Eu tava bem aqui. Te esperando.
- E como tu sabia?
- Tu já vai saber. Trouxe o dinheiro?
Lourival quase não conseguia conter sua excitação. Estava prestes a ser o Dono da Verdade. Ele, que nunca tinha sido levado a sério. Que nunca fora ouvido. Que era um imprestável… teria a sua vingança. E todos sabem que a verdade dói. Sim. Ele, que era um debilóide menosprezado por quem quer que o cercava, teria agora uma opinião. Saberia segredos, pontos fracos. Poderia até descrever o futuro. O que ele falasse seria a verdade. Sem ressalvas. Sem contradições. Se deliciava imaginando as pessoas caminhando nas palmas das suas mãos:
- Tá aqui.
Lourival tira o dinheiro do bolso.
- Quinhentos contos?
- Quinhentos contos.
O negro conta o dinheiro, sentindo no tato o papel áspero das notas. Olha pra Lourival. Olha para o dinheiro. Acende um cigarro. Lourival espera impaciente. O negro dá uns tragos no cigarro e então crava a brasa acesa nas costas da mão de Lourival.

VERDADE
Lourival acordou com um menino gritando.
- Mamãe, também quero ver o morto.
Tinha um monte de gente olhando pra ele com fascínio serial killer. Os raios de sol passavam por entre as pessoas, ganhando forma. Então, radiando com aquela luz de cinema, acordou Lourival. Desmaira com a dor e o negro, logo mentiu: "Não fui eu", deu uma risada e saiu de fininho. Todos que estavam ali, apavorados e deslumbrados com o morto, fizeram um oh! Morto nada. Lourival levantou, envolto daquela luz bonita entre toda aquela gente admirada. Enquanto tirava o cigarro já apagado das costas de sua mão, ainda cego pela claridade, pensou em voz alta e imponenente: “Eu sou o Dono da Verdade”.

MANHÃ SEGUINTE (parte 2)
A Vizinha de Lourival, dona Olga, velha fofoqueira que dividia seu tempo entre o bingo e as rodas de canastra a dinheiro, vinha notando um movimento diferente na rua:
- Tem que estar acontecendo alguma coisa na casa da dona Inês. Aí tem! - Comentava chuleando uma boa fofoca.
Isso foi bem na época que surgiu o boato que dona Inês, a mãe do Lourival, estava enlouquecendo. O que realmente tinha uma boa probabilidade de acontecer. Aquele dia em que Lourival comprou a verdade, ela não comprou seus remédios. Chegou na farmácia e, por sorte ou azar, no momento em que ia entrar, viu que dona Olga passava pelo outro lado da rua, liderando sua corja de velhas para uma longa tarde de pastéis, café e especulações no Anfeta Bingo. Dona Inês não resistiu, esqueceu o poder terapêutico dos medicamentos e se juntou com as outras velhas. Ninguém conseguia entender, mas aquele bingo tinha alguma coisa bem louca. Bastavam alguns cafézinhos para senhoras de respeito estarem rindo de piadas sem graça, falando sem parar e aumentando seus lances no jogo. Dona Olga já recomendava:
- Em dia de bingo, cola dupla na dentadura.
Realmente a velha Inês estava mais empolgada. Talvez tivesse encontrado o que tanto procurava: um sentido para a vida. Naquele momento tudo o que importava eram os desenhos que fazia no seu cartão de apostas com os grãos de feijão. No meio da conversa eufórica das velhas, dona Olga encosta o indicador nos lábios e faz “ssss”. Como num concerto, surgiu o silêncio entrecortado pelo som das bolas numeradas girando e as dentaduras batendo. Foi no meio desta tensão densa que Dona Inês explodiu:
- Bingo!
Todos olham para ela. As velhas ao redor tentam conter suas risadas, mas quando Oliver Mc Green, ex-galã de telenovela e atual apresentador do Anfeta Bingo aponta para dona Inês e a ridiculariza com uma risada escancarada, todas as velhas perdem o pudor e caem na gargalhada. Uma delas exagerou tanto na dose que chegou a cospir a dentadura.
- Viste? Cola dupla. - Advertiu dona Olga, voltando a rir.

VOLTA POR CIMA
Quem encontrava, ou mesmo passava os olhos desapercebidos por Lourival, não dizia que era a mesma pessoa. Tinha alguma coisa no seu olhar. Era uma certeza, uma segurança crua que assustava os velhos conhecidos e impressionava quem estava por conhecer. Não demorou muito e todos já comentavam:
- O Lourival, hein?
- Se revelou.
-É um profeta.
Com efeito, do dia para a noite o rapaz se transformou. Passou a ser visto em compania das mulheres mais bonitas do pedaço. O passo gingado. O braço dado com a moça. Varava a madrugada nos botecos à beira mar, fazendo dinheiro grosso aplicando pequenos golpes e jogando bilhar. Passava brilhantina no cabelo e chegou até a pegar dinheiro de mulher. Chegaram até a dizer que o psicólogo das redondezas, doutor Vladimir Shunermann, estava interessado em estudar o caso.

ENCLAUSURAMENTO
Depois daquele dia no bingo a dona Inês nunca mais saiu de casa. Realmente enlouqueceu. Por pura conhecidência ou azar, Luci, a enfermeira que Lourival contratou para cuidar da sua pobre mãe, eventualmente fazia faxina na casa da dona Olga, a velha lider dos exageros no bingo, agora arqui-inimiga de dona Inês. Nas madrugadas mais escuras podia-se ouvir as duas velhas fazendo guerra de cebolas. Dona Olga pagava mais que a tabela só para ouvir deliciada Luci relatar as conversas de dona Inês e as paredes.

EPÍLOGO
Lourival por sua vez, no auge da sua nova e indiscutível malandragem, tava todo bacana caminhando no centro, falando verdades inconstestáveis que maravilhavam os transeuntes que o seguiam em bando. Enquanto fazia seus milagres, Lourival conseguia, ainda, assoviar para as mulatas vistosas, posar para fotos, dar entrevistas para rádios, olhar as vitrines, quando um frio percorre sua espinha e congela seu pensamento. Ele tenta olhar através do vidro para dentro da loja, mas seu olho não responde aos comandos do seu cérebro. Nesse momento Lourival percebe que não importa. Apesar de tudo saber, tudo o que ele consegue ver é o seu próprio reflexo.


Zaracla

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