quinta-feira, 15 de novembro de 2007

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Através

sei lá,
tou estranho
tantas coisas, possibilidades
tanta antecipação do que possa acontecer
vivo num jogo de adivinhação e fatos

tento olhar pro passado e tirar lições da vida
tento pensar em ti sem estremecer
sem a tempestade de emoções que tua memória traz

tudo é tão raso, eu profundo e superficial
tudo tão obscuro
ou será que tá mais claro que parece?

vida vai, vida vem, vida passa
será que o destino errante
satisfará meu maior desejo
protagonista dos meus pensamentos?

viva em minha cabeça está você
teus trejeitos me encantam
e tua beleza é muito além do físico


Zaracla

eterno retorno

sonha
foge da solidão
renasce no risco
volta à música dos poetas
morre na praia da glória
vive a vida com devoção
pois no passado
o futuro se completa


Zaracla

domingo, 11 de novembro de 2007

Rituatempo

O que estou propondo, apesar de todas convergências, divergências e convexidades, é um ensaio. Um estudo, um paradigma-doxal. O que estou propondo, por mais insólito que possa parecer é um ritual. Um ritual sobre o tempo.

O tempo que se leva entre a ferida e a dor. O tempo que se espera para a espera acabar. O tempo que leva pra sentir-se o amor. 1, 2, 3, comecemos a contar. As sombras se movem em detrimento da visão. As luzes se apagam e as palavras são em vão. Os personagens já não representam nada. Podemos até dizer que os personagens são as palavras. O sentido se disfarça de quebra cabeça. As imagens não se encaixam, não se movem, apenas representam fragmentos. E cai a chuva na luz da razão, fazendo ruir o obscuro, fazendo correr a mil léguas o que acreditavamos ser visão. Tempo, tempo, tempo. Quebrando o sentido. Caindo as cadeiras do destino.

Vejo as estrelas o sol e as rugas. Sinto o vento e os passos da vida. Se há palavra é porque há o tempo. Se existimos, o que levaremos? Esse rito não mexe com a matéria. Mas com a anti-energia do tempo e o legado da sua miséria. O que quero com esse ato não é impressionar. É cair em parafusos, é saltar etapas invencíveis. O que proponho é a lingua desafiar o paladar. Os cachorros correm em bando. Os homem segue as massas. O tempo não.

Se ontem já passou, pra que esperar? Se agora eu falo, será que é por falar? Embora tenhamos a resposta, preferimos semear a dúvida. Só assim cada um pode encontrar as suas. No fundo do seu olho refletem essas imagens. No fundo do poço ainda resta água. Não há mais idéias. Carecemos de vida. Desconheço o amor. Mas amo tanto.

O que acontece se eu parar de pensar?
O que ouviríamos se eu parasse de falar?

Ouviriamos seu suspiro e talvez minha vergonha. Respiro de fumaça em passos de fogo. Quem é o autor de toda essa merda? Quem perdeu seu tempo sem ao menos acreditar nisso tudo? Declaro que nessa hora, nesse momento, agora aqui, nada existiu. Nada aconteceu. É a ilusão do tempo que fez de nós suas vítimas. Somos crianças e o tempo é avô. Somos público e o tempo é ator. Somos atores e o tempo é diretor. Quem diria que pagaríamos para fazer papel de palhaço. Quem acredita que pode levantar e ir embora?

Tempo, se permite, vamos acabar.

De começar. E começar.



Zaracla

sábado, 10 de novembro de 2007

Leitura para o inferno

Na esquina ao lado passava um carro de polícia, então era engraçado e até estranho que estivessem assaltando uma velhinha no meio da pequena praça Don Feliciano. Se bem que ela tava dando bandeira. Ainda mais que lá era um antigo ponto de tráfico. Além de playboys cagados, com o tráfico chegam as viciadas prostituídas, que trazem os bandidos cafetões e com certeza, mais cedo ou mais tarde, a bandidagem iria tomar conta da praça. Tomou. E ali estava a velhinha. Caminhando despreocupada com a bolsa cheia. Devia ser esclerose múltipla, que ataca todos os cantos do cérebro e transforma as pessoas em amebas. Mas na real até eu fiquei a fim de roubar a velhinha. Como os hôme estavam dobrando a esquina eu fiquei na minha, porque eu não sou chinelo, não. Esses otários assaltam por comida, status e pra próxima carreira de merda. Pobres animais. Eu assalto por prazer.

Os hôme dobraram a esquina e se mandaram, fazendo vista grossa aos berros iniciais, aos murmúrios que contam o meio dessa velha história, e a queda que foi um fim inesperado pros dois malandros viciados e brancos que deram um safanão na velha, arrancaram a bolsa e saíram correndo. Eu fui nessa e fiquei me perguntando se a velha tinha morrido ou o quê. Achando estranho que a polícia tinha se feito de peixe morto. E procurando uma oportunidade. Um dia me disseram que oportunidade é um gigante correndo pelado pela rua. Ele é careca, mas tem um moicano vermelho no meio da cabeça. Tu tem que pular muito alto e agarrar o chumaço de cabelo pra trazer o gigante pro chão. Eu achei que era papo. Mas a moral é ficar de olho aberto. Porque nessa profissão eu trabalho com o inesperado, em parceria com o acaso. Tudo pode acontecer. Alguns me chamam de moço, mas eu não tenho nome. A maioria cala com o medo. Eu tenho um três oitão. Meu método? O improviso.


Zaracla

Justiça

Ela vinha caminhando em minha direção. Alguma coisa em seu olhar. Algo de estranho, como pinceladas de decepção. Tentei decifrar seus sonhos, seus medos, sua angustia. Caí no lugar comum, nos meus próprios erros, me vi tateando a escuridão da incerteza, percorrendo um corredor sem final aparente, perseguido pelos fantasmas do arrependimento. Eu sabia que existia algo, que embora não soubesse identificar claramente, era a base de todo o relacionamento. Talvez isso tenha desgastado nosso elo. Talvez isso tenha apagado, com borracha, os traços incertos dos nossos sonhos. Deixei minha imaginação arquear suas asas. Deixei-a voar para o passado.

Aquele dia de ar carregado e gotas descompassadas saltou da massa disforme da minha memória e preencheu minha consciência. Lembrei das muitas possibilidades que qualquer movimento causava e, devagarinho, revivi as sensações. A cada momento eu entrava num transe mais profundo, o que levou o passado a ser presente. Senti pequenas náuseas e meu estômago começou a dar voltas inesperadas. Se eu soubesse não teria confiado. Se eu tivesse noção da fragilidade de quem confia, tudo teria sido diferente. É engraçado como a vida vai levando a ingenuidade aos poucos. Dia pós dia vejo meus sonhos se despirem de romantismo e mergulharem num lago petrificado, a realidade. E, com o impacto do choque, eles vão se deformando aos poucos, ganhando novas formas. A antiga beleza inocente, agora garras afiadas tentando agredir, como se o ataque fosse a única defesa.

É, existe algo que está entre todos os gestos interhumanos. Gotas brilhantes que se escondem, sendo lembradas por poucos.

Mas, se algum dia voltarem a lubrificar os entremeios dos nossos sentimentos, nesse dia, meus sonhos voltarão a sonhar.

Zaracla

Através

vem,
o novo nos espera
vamos fugir do que já era
vamos criar um mundo a parte

vem,
vamos brincar de esconde-esconde
vamos abrir o horizonte
através da nossa arte


Zaracla

Soldado de palavras

Eu sou um soldado
armado até a língua.

Minha artilharia é a gramática.

Meus tiros são de verbo,
eu metralho sem rima.

Meu escudo não têm métrica.

As palavras cospem fogo,
lançando chamas na imaginação.

Eu engulo o sangue
que nas tuas veias verbou.


Zaracla

Em caso de emergência

tenho tudo nada tenho
sinto muito, pouco sinto
entre os tragos de um cigarro
procuro a saída


Zaracla

Cadeira de balanço

meus livros
há muito mudaram seus títulos
reescreveram seus conteúdos
meus contos já não agradam aquele autor que olhava-os com orgulho

minhas calças já não se podem usar
pertencem às traças, duras de naftalina
minhas palavras já não tem o mesmo efeito
perderam-se em minha incapacidade de expressão
meus ouvidos, meus olhos
já não sentem o mundo como este era antes de mudar

hoje sou apenas uma lembrança
sem árvore, sem filho, sem o livro

que um dia me escreverá

Zaracla

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Pólvora

Eu sou um merda. Provavelmente a crise criativa de um artista possa levá-lo a uma fossa nunca imaginada por aquele não dado aos ofícios da arte. Como por ironia, a sala estava iluminada pelo azulado incandescente da TV. O que emprestava um frio imaginário para um verão de 39 graus, umidade relativa do ar de 18%. Se pensarmos com mais afinco, podemos enxergar os reflexos da televisão no rosto dele ao pegar lentamente o cigarro. Por capricho, seus dedos ignoraram o isqueiro, e, com toda a destreza, alcançaram a caixa de fósforos: usar o isqueiro naquele momento seria como comemorar. Além disso, os fósforos dão mais prazer. São quase um ritual: O batuque da caixinha. O suspense na hora de abri-la (Será que ainda resta um intacto?). A escolha do melhor palito. O movimento na hora de riscar no fósforo. Tssss. E a primeira tragada vinha com um sabor de pólvora que Mancada apreciava. Mancada? É, não estranhem o apelido. Na sua teoria de conclusão do curso de Física ele dissertou sobre as possibilidades de todos os grandes pensamentos geniais surgirem de ocasionais mancadas. O erro é necessário para as descobertas, então devemos buscá-lo, sem pensar em acertar. Murmúrios. Risadas jocosas. Pais indignados. Família constrangida. E naquele momento Alberto Cabral foi banido do mundo da física. Que pouca vergonha alguém discursar com sinceridade em uma conclusão de curso. Prestes a ser Físico. Cabral já tinha até sentido o cheiro de merda que a física acadêmica exalava, mas até agora nunca tinha pisado de pé descalço nela. Mole, quente e fedorenta. Foi-se a vocação, foi-se o interesse, mas o apelido ficou: Mancada.
Aos poucos, ele foi sumindo do convívio cotidiano. E, quanto mais se fechava em si, descobria que estava sendo perseguido por idéias. Um dia, uma delas se tornou real. E ele tinha feito isso com as próprias mãos. E foi assim que Alberto abriu espaço pro Mancada. Futuramente (Cuidado. Ele ainda não sabe.), vai se tornar um artista cultuado por um grupo de junkies, os Osvaldos. Imagine. Saber que aqueles trapos humanos um dia o idolatrarão destruiria a atmosfera melancólica do presente: Mancada fumando e sendo molhado pelo azul solitário da TV. O cigarro, por si só, já transmite uma amargura contida, como se fosse o inverso de um nenê mamando no seio da mãe. Talvez mamando no seio da morte. É. Talvez seu desejo de viver fosse igual ao seu desejo de morrer. O que era bom por dois motivos: o desejo de viver o levava a continuar vivendo e o desejo de morrer, o levava a criar. É claro que não era grande coisa que ele criava. Mas, pelo menos, na sua arte tinha uma digna originalidade disfarçada. Uma energia transformada em matéria com alguma abstração. Sei lá. Esses críticos merecem nossa dúvida. E foi por eles que Mancada procurou um psiquiatra: viciou-se em críticas. As escritas. No início, as das suas próprias obras. Depois, mergulhou numa piscina de palavras, opiniões e cuspe. Porque os críticos cospem quando falam e devem o fazer quando escrevem. É preciso manter distância, ou carregar discretamente um lencinho no bolso. No fim, já estava procurando revistas especializadas e, tamanha sua obsessão, não dormia mais. Mas não vamos mentir. Quando seu corpo já tinha virado um bagaço tão grande que os olhos não conseguiam mais discernir as palavras cuspidas por entre os dentes de um crítico chinelo, ele dormia sim. Era um sono culpado, não se sabe o porquê. Em vinte seções de dura análise, doutor Stravinski curou Mancada, que se dispôs novamente a criar. O que tudo isso quis dizer na verdade é que sua arte agradava. Embora maldito para os físicos, professores colegiais com grande poder de influenciar o senso comum, era admirado contidamente pelos junkies. E isso não podia vir a tona. Porque provavelmente seria a quantidade precisa de auto-apreciação, acabando com o equilíbrio entre o desejo pela vida e o desejo pela morte. Aí, a destreza no movimento dos dedos para pegar a caixa de fósforo se anularia, fazendo Mancada acender aquele cigarro com o isqueiro. E então, a primeira tragada já não teria gosto de pólvora queimando. Nem o gosto da maldição.



Zaracla

Miado canino

Ei, você, ele virou sem ao menos pensar, olhou em sua volta, com a alegria dos cães que abanam o rabo ao serem chamados, mas ninguém o chamava, viu duas pessoas, típicamente velhos amigos, abraçarem-se, beijarem-se, tapinha nas costas, sorrisos, velhas histórias, sentimentos reprimidos, ilusões. Até agora não entendia o que tinha se tornado, nunca se vira como alguém, sentia-se estranho aos olhares, que ao passar parariam sem pudor, abismados cutucariam o próximo, comentariam as peripécias da natureza. Assim era ele, inusitado. Poderia ser descrito com uma ou rios de palavras, mas a água seria densa, daquelas que, ao mergulhar, soam como uma chicotada, uma bordoada da vida, com certeza machucariam, deixariam marcas, vergões, e ao chegar em casa a mulher perguntaria, aonde andaste? as explicações seriam inevitáveis, embora pouco plausíveis, com amigos, a mulher riria, seus pensamentos envoltos com rancor, seu gestos ficando mais e mais agressivos, seus sentimentos transbordando os limites da razão. Estouraria, vagabundo, diria, sem vergonha, puta, energúmeno, estúpida, impura, vaca louca. Daí, num segundo tudo mudaria, o que, antes, era amor transformaria-se em desgosto, ódio, sei lá. Os tapas soariam, cadeiras voando, a cor viscosa do sangue, os olhos furados pelas chaves de fenda do encanador. Assim era sua vida, marcada de fortes sensações, nunca passara desapercebido, e isso não o fazia feliz, não como aquelas pessoas que de tudo fazem para chamar a atenção, que pintam e bordam, gritam, pintam a bunda de vermelho, sobem o poste com uma melancia pendurada no pescoço, compram carros do ano, importados, mais caros que podem pagar, daí os juros, escravos dos bancos, andando além dos limites de velocidade impostos pelo governo hipócrita, que rouba sem pudor, daí as multas, o sentimento de escravidão, o sistema, que por mais liberdade que promete, mais a tira, e, depois de alguns meses de glória, os anos de desespero, as contas bloqueadas, sem sigilo bancário, os antigos amigos debandando em êxodo financeiro à procura de alguém mais próspero para se encostar, e os cabelos que antes andavam penteados com gumex, agora eram descabelados, desgrenhados pelos ventos da dívida, pelo furacão da inadimplência. Assim era ele, imperdoável, sentia desprezo pelos demais, que o olhavam com espanto. Olhou para aqueles dois amigos que acabavam de se abraçar, tirou o revólver da cintura e deu três tiros.

Zaracla

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Esquina Cortada

Graice. Tati. Esmeralda. Val. Patrícia. Ale. Karina. Raquel. Não importava a cara que sua imaginação criava, eles queriam um corpo para vestir suas fantasias. Parada naquela esquina riscada por faróis, ela via a noite passar. Parece ontem, pensou vendo sua bolsa girar mais uma vez, pesada. Depois que outras como ela começaram a desaparecer num relance, ela trocou o perfume, a escova, as alças de silicone por pedras. Encheu a bolsa. A noite tem gosto de comida requentada, quente nas bordas, gelada nas garfadas mais fundas. Um carro pára. Um corpo disfarçado pelo reflexo se inclina e abre a janela, daquelas com manivela. Passos vacilantes. Cabelos voam, simulam o vento. Ela encosta na janela entreaberta. Álcool, sempre álcool. Nunca conseguia ver o futuro, o passado, o presente, sem aquele cheiro impregnado repugnante de álcool. Ardia as narinas, náusea. Então a pergunta. Pati. Dançava conforme a música. Afrodite, deusa do amor, ouviu com asco as palavras enroladas e cuspidas por entre dentes amarelos de cigarro. Olhos vermelho-insano. Pescoço enforcado por uma gravata sem nó. Afrodite lembra afro, negro, noite. A porta abre, entra, fecha. Pneus cantam a música arranhada do adeus.

Zaracla

Chuva

Nunca ninguém parou para pensar num desses dias molhados, porque a chuva não permite esses devaneios filosóficos. Mas é certo que as pessoas caminham cabisbaixas, talvez para desviar das poças. Um passo acidental certamente molharia os sapatos, encharcaria as meias e os pés, levaria as palavras aos tortuosos caminhos da indignação. Porra. Ou talvez porque os olhos poderiam molhar, confundir com lágrimas, chamar sentimentos há muito guardados, embaçariam, confundiriam os caminhos, plum, tropeçaria e daria de cara com o poste... No entanto, atrás daquele semblante triste, porque as aparências enganam, havia um sorriso contido, uma daquelas aventuras que a imaginação dá vida e vem habitar nossos pensamentos, mostrando os dentes de criança do sonhar, banguelas, sujos de chocolate, numa gargalhada sem início nem fim, daquelas que, geralmente, as pessoas em volta perguntam O que foi? e nada temos a dizer, porque a risada certamente se esvairia, sobrariam as desculpas esfarrapadas, aquelas que não convencem nem ao menos uma vó, que a vida fez caduca para ser enganada por tudo e todos, que perguntaria Que horas são? de tempo em tempo e a resposta seria sempre a mesma, Os dias são iguais, nem sei mais porque me preocupo com as horas, e antes mesmo de ouvir a resposta do neto mentirosos, que sempre diria Já é noite, a vovó, já cansada, desbotada pelo tempo, cairia no sono, deixando a carteira recheada de notas que não valem mais à mostra, e o netinho, tão inocente e desinteressado, que cuidava da vó só por prazer começaria sua festa, amarraria a velha, chamaria os amigos barra pesada, venderia o corpo da querida avó, e a senhora, que tão inocentemente fingia dormir, sorriria o riso disfarçados daqueles que tudo sabem, ficaria mole como uma plasta, seus gemidos baixinhos confundidos com as gargalhadas bêbadas dos moleques, que seriam a trilha sonora daquele filme da comédia da velhice, Meu netinho predileto, diria ela enlouquecida, as pernas balançando como nos bons tempos, maldizendo o velho vovô que nunca soubera satisfazê-la, abraçando o neto e dando meia duzias de notas antigas para comprar maconha, ou qualquer outra coisa ilegal, por que os dias são iguais... Ainda mais aqueles dias molhados e egoístas, que vem tirar a alegria daqueles que ainda tem alguma a viver, vem, na verdade, adiar os momentos alegres, pois diriam que A filosofia é o antônimo da felicidade, imaginem só, um filósofo, rindo, sendo ridicularizado pelos demais, falando de perguntas insolúveis com um riso no rosto, não. Não seria possível nem ao menos um olhar de esperança, um sentimento de vitória, Perdedor diria seu pai, e o filósofo, preocupado com o nada, com o tudo, que nada mais era que o nada transfigurado, molhado com chocolate, adoçado com vinho, flambado com mel. Não, diria ele enlouquecido, Mais uma dose, e a filosofia morreria naqueles dias chuvosos, sem cor nem respostas, perdidos nos sonhos...

Zaracla

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Poder

Eu disse que não tinha gostado de nada e eles quiseram saber o porquê.
Daí eu perdi um tempão tentando explicar pra eles que nada na vida tinha uma razão plausível. Tudo era feito inconscientemente para satisfazer a demanda dos fatos, a realidade é na verdade uma grande falsificadora de momentos, nos apressando e tirando previlégio de vivê-los sem a selvageria da inocência.

- Mas senhor eu respeito sua idade e sabedoria, mas, veja bem, eu vivo a quarenta e sete anos neste mundo e venho a pensar que a realidade é dura demais. Como o senhor diz que vivemos sem razão e sem discernimento dos fatos? Eu, que sempre me julguei lúcido - disse o homem sem ao menos pensar a respeito.

- A lucidez é uma das armas que a realidade em que vives. Ela usa suas artimanhas de mestre das ilusões para confundir o certo do errado e para te jogar a poção do sono - respondi.

E ninguém mais foi visto caminhando pelas redondezas daquela vizinhança pálida, onde os carros não passavam e não existia diferença entre o dia e a noite. Todos viviam sem saber o porque e todos acreditavam em suas convicções de plástico. E, cedo, nos tombos dos primeiros passos, no som das primeiras palavras, nas curvas do beabá, aprendiam a tapear suas consciências com a imagem de felicidade alcançada, escondendo os verdadeiros desejos e sentimentos de um ser desprendido de padrões, voando livre pelos ares do mundo, nadando no oceano da vida.

Levanta-te e anda. Tudo podes.

Zaracla

Tic Tac

Esperava contando inconscientemente o tic-tac do antigo relógio despertador. O som tomava formas e o passado atingia seu estado de consciência imediata como num devaneio dos incansáveis dias sem dormir. Algo estava prestes a acontecer, era evidente. Em cada passo, em cada movimento do jogo da vida, em cada aroma das ruas pálidas de inverno, em cada assovio, o vento trazia as notícias dum amanhã incerto, mas as dúvidas o faziam sentir-se vivo. Entre uma e outra piscadela de seus olhos desbotados via as faces de uma realidade vidrada pelas sombras. E a realidade permanecia escondida em algum canto da imaginação. Sua atenção pulou da janela de seu mundo interior para o quarto, cada canto, cada quadro, as fotos na parede fria, as roupas jogadas pelo chão ganhavam significados nunca realmente claros, mas vivos em seu sábio inconsciente. Com um sorriso avistou, lá no horizonte, um dos seus sonhos, um dos tantos que corriam muito mais rápido que podia alcançar. Na velocidade das estrelas cadentes, seu pensamento atingiu o ápice da criação, trazendo um novo desejo fresquinho saído de um ou mais sentidos insatisfeitos. O desejo era sem forma e vazio, mas ganhou vida e alma em sua cabeça adestrada. Não se chamava mais Zaracla, mas sim alguém que cultuava um desejo inadiável, que moveria o mundo para ver as cores das sensações de conquista que tudo aquilo traria.
Depois de algumas tentativas percebeu que nada o satisfaria. Viu que a profundeza dos livros traria o vazio do abismo que se tornara sua alma. Comunicar só traria a incapacidade de compreensão e não achou ninguém que se preocupasse o bastante com suas idéias. Fundou seu próprio clube e foi criando amigos imaginários, dando nomes, rostos e características. Churrascos no fim de semana, poker nas terças à noite, tudo isso para ouvir suas histórias. Z, o sábio. Zaracla, o místico. Pablo, o indecifrável, murmuravam as multidões e todos viravam ao vê-lo passar, ora para admirá-lo, ora para invejá-lo. Taxado de louco, temido como profeta, mas todos tinham alguma palavra abstrata, que nada daquilo significava, eram apenas uma fuga ao incompreendido, uma interpretação ao inexistente, como se o novo nunca pudesse ganhar novos significados, como se tudo vestisse a velha roupa dos conceitos e nunca mais voltasse a ser como foi, desprendido de padrões, vivo por viver, esperando cada novo passo do acaso, que olha sob as grossas sombrancelhas, calculista, esperando o melhor momento para mostrar seus dentes de leite e dar seu sorriso irremediável.
Mais um dia se passa na antiga fábrica de sonhos, menos um dia se passará. Mais uma palavra, mais um momento, mais uma sensação nos meus sentimentos sensíveis. As lágrimas transbordam meus olhos, não sei ao certo, dúvida ou razão? O relógio se adapta às batidas descompassadas do seu coração e ele abre os olhos para sua imagem naquele espelho encantado, na verdade um mestre das ilusões que mostrava a cada dia um novo personagem desse filme intrigante de final manjado, dessa experiência intensa e subconsciente, a vida.


Zaracla, 24 de Setembro de 2000.