quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Esquina Cortada

Graice. Tati. Esmeralda. Val. Patrícia. Ale. Karina. Raquel. Não importava a cara que sua imaginação criava, eles queriam um corpo para vestir suas fantasias. Parada naquela esquina riscada por faróis, ela via a noite passar. Parece ontem, pensou vendo sua bolsa girar mais uma vez, pesada. Depois que outras como ela começaram a desaparecer num relance, ela trocou o perfume, a escova, as alças de silicone por pedras. Encheu a bolsa. A noite tem gosto de comida requentada, quente nas bordas, gelada nas garfadas mais fundas. Um carro pára. Um corpo disfarçado pelo reflexo se inclina e abre a janela, daquelas com manivela. Passos vacilantes. Cabelos voam, simulam o vento. Ela encosta na janela entreaberta. Álcool, sempre álcool. Nunca conseguia ver o futuro, o passado, o presente, sem aquele cheiro impregnado repugnante de álcool. Ardia as narinas, náusea. Então a pergunta. Pati. Dançava conforme a música. Afrodite, deusa do amor, ouviu com asco as palavras enroladas e cuspidas por entre dentes amarelos de cigarro. Olhos vermelho-insano. Pescoço enforcado por uma gravata sem nó. Afrodite lembra afro, negro, noite. A porta abre, entra, fecha. Pneus cantam a música arranhada do adeus.

Zaracla

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