quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Pólvora

Eu sou um merda. Provavelmente a crise criativa de um artista possa levá-lo a uma fossa nunca imaginada por aquele não dado aos ofícios da arte. Como por ironia, a sala estava iluminada pelo azulado incandescente da TV. O que emprestava um frio imaginário para um verão de 39 graus, umidade relativa do ar de 18%. Se pensarmos com mais afinco, podemos enxergar os reflexos da televisão no rosto dele ao pegar lentamente o cigarro. Por capricho, seus dedos ignoraram o isqueiro, e, com toda a destreza, alcançaram a caixa de fósforos: usar o isqueiro naquele momento seria como comemorar. Além disso, os fósforos dão mais prazer. São quase um ritual: O batuque da caixinha. O suspense na hora de abri-la (Será que ainda resta um intacto?). A escolha do melhor palito. O movimento na hora de riscar no fósforo. Tssss. E a primeira tragada vinha com um sabor de pólvora que Mancada apreciava. Mancada? É, não estranhem o apelido. Na sua teoria de conclusão do curso de Física ele dissertou sobre as possibilidades de todos os grandes pensamentos geniais surgirem de ocasionais mancadas. O erro é necessário para as descobertas, então devemos buscá-lo, sem pensar em acertar. Murmúrios. Risadas jocosas. Pais indignados. Família constrangida. E naquele momento Alberto Cabral foi banido do mundo da física. Que pouca vergonha alguém discursar com sinceridade em uma conclusão de curso. Prestes a ser Físico. Cabral já tinha até sentido o cheiro de merda que a física acadêmica exalava, mas até agora nunca tinha pisado de pé descalço nela. Mole, quente e fedorenta. Foi-se a vocação, foi-se o interesse, mas o apelido ficou: Mancada.
Aos poucos, ele foi sumindo do convívio cotidiano. E, quanto mais se fechava em si, descobria que estava sendo perseguido por idéias. Um dia, uma delas se tornou real. E ele tinha feito isso com as próprias mãos. E foi assim que Alberto abriu espaço pro Mancada. Futuramente (Cuidado. Ele ainda não sabe.), vai se tornar um artista cultuado por um grupo de junkies, os Osvaldos. Imagine. Saber que aqueles trapos humanos um dia o idolatrarão destruiria a atmosfera melancólica do presente: Mancada fumando e sendo molhado pelo azul solitário da TV. O cigarro, por si só, já transmite uma amargura contida, como se fosse o inverso de um nenê mamando no seio da mãe. Talvez mamando no seio da morte. É. Talvez seu desejo de viver fosse igual ao seu desejo de morrer. O que era bom por dois motivos: o desejo de viver o levava a continuar vivendo e o desejo de morrer, o levava a criar. É claro que não era grande coisa que ele criava. Mas, pelo menos, na sua arte tinha uma digna originalidade disfarçada. Uma energia transformada em matéria com alguma abstração. Sei lá. Esses críticos merecem nossa dúvida. E foi por eles que Mancada procurou um psiquiatra: viciou-se em críticas. As escritas. No início, as das suas próprias obras. Depois, mergulhou numa piscina de palavras, opiniões e cuspe. Porque os críticos cospem quando falam e devem o fazer quando escrevem. É preciso manter distância, ou carregar discretamente um lencinho no bolso. No fim, já estava procurando revistas especializadas e, tamanha sua obsessão, não dormia mais. Mas não vamos mentir. Quando seu corpo já tinha virado um bagaço tão grande que os olhos não conseguiam mais discernir as palavras cuspidas por entre os dentes de um crítico chinelo, ele dormia sim. Era um sono culpado, não se sabe o porquê. Em vinte seções de dura análise, doutor Stravinski curou Mancada, que se dispôs novamente a criar. O que tudo isso quis dizer na verdade é que sua arte agradava. Embora maldito para os físicos, professores colegiais com grande poder de influenciar o senso comum, era admirado contidamente pelos junkies. E isso não podia vir a tona. Porque provavelmente seria a quantidade precisa de auto-apreciação, acabando com o equilíbrio entre o desejo pela vida e o desejo pela morte. Aí, a destreza no movimento dos dedos para pegar a caixa de fósforo se anularia, fazendo Mancada acender aquele cigarro com o isqueiro. E então, a primeira tragada já não teria gosto de pólvora queimando. Nem o gosto da maldição.



Zaracla

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