terça-feira, 6 de novembro de 2007

Tic Tac

Esperava contando inconscientemente o tic-tac do antigo relógio despertador. O som tomava formas e o passado atingia seu estado de consciência imediata como num devaneio dos incansáveis dias sem dormir. Algo estava prestes a acontecer, era evidente. Em cada passo, em cada movimento do jogo da vida, em cada aroma das ruas pálidas de inverno, em cada assovio, o vento trazia as notícias dum amanhã incerto, mas as dúvidas o faziam sentir-se vivo. Entre uma e outra piscadela de seus olhos desbotados via as faces de uma realidade vidrada pelas sombras. E a realidade permanecia escondida em algum canto da imaginação. Sua atenção pulou da janela de seu mundo interior para o quarto, cada canto, cada quadro, as fotos na parede fria, as roupas jogadas pelo chão ganhavam significados nunca realmente claros, mas vivos em seu sábio inconsciente. Com um sorriso avistou, lá no horizonte, um dos seus sonhos, um dos tantos que corriam muito mais rápido que podia alcançar. Na velocidade das estrelas cadentes, seu pensamento atingiu o ápice da criação, trazendo um novo desejo fresquinho saído de um ou mais sentidos insatisfeitos. O desejo era sem forma e vazio, mas ganhou vida e alma em sua cabeça adestrada. Não se chamava mais Zaracla, mas sim alguém que cultuava um desejo inadiável, que moveria o mundo para ver as cores das sensações de conquista que tudo aquilo traria.
Depois de algumas tentativas percebeu que nada o satisfaria. Viu que a profundeza dos livros traria o vazio do abismo que se tornara sua alma. Comunicar só traria a incapacidade de compreensão e não achou ninguém que se preocupasse o bastante com suas idéias. Fundou seu próprio clube e foi criando amigos imaginários, dando nomes, rostos e características. Churrascos no fim de semana, poker nas terças à noite, tudo isso para ouvir suas histórias. Z, o sábio. Zaracla, o místico. Pablo, o indecifrável, murmuravam as multidões e todos viravam ao vê-lo passar, ora para admirá-lo, ora para invejá-lo. Taxado de louco, temido como profeta, mas todos tinham alguma palavra abstrata, que nada daquilo significava, eram apenas uma fuga ao incompreendido, uma interpretação ao inexistente, como se o novo nunca pudesse ganhar novos significados, como se tudo vestisse a velha roupa dos conceitos e nunca mais voltasse a ser como foi, desprendido de padrões, vivo por viver, esperando cada novo passo do acaso, que olha sob as grossas sombrancelhas, calculista, esperando o melhor momento para mostrar seus dentes de leite e dar seu sorriso irremediável.
Mais um dia se passa na antiga fábrica de sonhos, menos um dia se passará. Mais uma palavra, mais um momento, mais uma sensação nos meus sentimentos sensíveis. As lágrimas transbordam meus olhos, não sei ao certo, dúvida ou razão? O relógio se adapta às batidas descompassadas do seu coração e ele abre os olhos para sua imagem naquele espelho encantado, na verdade um mestre das ilusões que mostrava a cada dia um novo personagem desse filme intrigante de final manjado, dessa experiência intensa e subconsciente, a vida.


Zaracla, 24 de Setembro de 2000.

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