quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Chuva

Nunca ninguém parou para pensar num desses dias molhados, porque a chuva não permite esses devaneios filosóficos. Mas é certo que as pessoas caminham cabisbaixas, talvez para desviar das poças. Um passo acidental certamente molharia os sapatos, encharcaria as meias e os pés, levaria as palavras aos tortuosos caminhos da indignação. Porra. Ou talvez porque os olhos poderiam molhar, confundir com lágrimas, chamar sentimentos há muito guardados, embaçariam, confundiriam os caminhos, plum, tropeçaria e daria de cara com o poste... No entanto, atrás daquele semblante triste, porque as aparências enganam, havia um sorriso contido, uma daquelas aventuras que a imaginação dá vida e vem habitar nossos pensamentos, mostrando os dentes de criança do sonhar, banguelas, sujos de chocolate, numa gargalhada sem início nem fim, daquelas que, geralmente, as pessoas em volta perguntam O que foi? e nada temos a dizer, porque a risada certamente se esvairia, sobrariam as desculpas esfarrapadas, aquelas que não convencem nem ao menos uma vó, que a vida fez caduca para ser enganada por tudo e todos, que perguntaria Que horas são? de tempo em tempo e a resposta seria sempre a mesma, Os dias são iguais, nem sei mais porque me preocupo com as horas, e antes mesmo de ouvir a resposta do neto mentirosos, que sempre diria Já é noite, a vovó, já cansada, desbotada pelo tempo, cairia no sono, deixando a carteira recheada de notas que não valem mais à mostra, e o netinho, tão inocente e desinteressado, que cuidava da vó só por prazer começaria sua festa, amarraria a velha, chamaria os amigos barra pesada, venderia o corpo da querida avó, e a senhora, que tão inocentemente fingia dormir, sorriria o riso disfarçados daqueles que tudo sabem, ficaria mole como uma plasta, seus gemidos baixinhos confundidos com as gargalhadas bêbadas dos moleques, que seriam a trilha sonora daquele filme da comédia da velhice, Meu netinho predileto, diria ela enlouquecida, as pernas balançando como nos bons tempos, maldizendo o velho vovô que nunca soubera satisfazê-la, abraçando o neto e dando meia duzias de notas antigas para comprar maconha, ou qualquer outra coisa ilegal, por que os dias são iguais... Ainda mais aqueles dias molhados e egoístas, que vem tirar a alegria daqueles que ainda tem alguma a viver, vem, na verdade, adiar os momentos alegres, pois diriam que A filosofia é o antônimo da felicidade, imaginem só, um filósofo, rindo, sendo ridicularizado pelos demais, falando de perguntas insolúveis com um riso no rosto, não. Não seria possível nem ao menos um olhar de esperança, um sentimento de vitória, Perdedor diria seu pai, e o filósofo, preocupado com o nada, com o tudo, que nada mais era que o nada transfigurado, molhado com chocolate, adoçado com vinho, flambado com mel. Não, diria ele enlouquecido, Mais uma dose, e a filosofia morreria naqueles dias chuvosos, sem cor nem respostas, perdidos nos sonhos...

Zaracla

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