sábado, 10 de novembro de 2007

Leitura para o inferno

Na esquina ao lado passava um carro de polícia, então era engraçado e até estranho que estivessem assaltando uma velhinha no meio da pequena praça Don Feliciano. Se bem que ela tava dando bandeira. Ainda mais que lá era um antigo ponto de tráfico. Além de playboys cagados, com o tráfico chegam as viciadas prostituídas, que trazem os bandidos cafetões e com certeza, mais cedo ou mais tarde, a bandidagem iria tomar conta da praça. Tomou. E ali estava a velhinha. Caminhando despreocupada com a bolsa cheia. Devia ser esclerose múltipla, que ataca todos os cantos do cérebro e transforma as pessoas em amebas. Mas na real até eu fiquei a fim de roubar a velhinha. Como os hôme estavam dobrando a esquina eu fiquei na minha, porque eu não sou chinelo, não. Esses otários assaltam por comida, status e pra próxima carreira de merda. Pobres animais. Eu assalto por prazer.

Os hôme dobraram a esquina e se mandaram, fazendo vista grossa aos berros iniciais, aos murmúrios que contam o meio dessa velha história, e a queda que foi um fim inesperado pros dois malandros viciados e brancos que deram um safanão na velha, arrancaram a bolsa e saíram correndo. Eu fui nessa e fiquei me perguntando se a velha tinha morrido ou o quê. Achando estranho que a polícia tinha se feito de peixe morto. E procurando uma oportunidade. Um dia me disseram que oportunidade é um gigante correndo pelado pela rua. Ele é careca, mas tem um moicano vermelho no meio da cabeça. Tu tem que pular muito alto e agarrar o chumaço de cabelo pra trazer o gigante pro chão. Eu achei que era papo. Mas a moral é ficar de olho aberto. Porque nessa profissão eu trabalho com o inesperado, em parceria com o acaso. Tudo pode acontecer. Alguns me chamam de moço, mas eu não tenho nome. A maioria cala com o medo. Eu tenho um três oitão. Meu método? O improviso.


Zaracla

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