quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Miado canino

Ei, você, ele virou sem ao menos pensar, olhou em sua volta, com a alegria dos cães que abanam o rabo ao serem chamados, mas ninguém o chamava, viu duas pessoas, típicamente velhos amigos, abraçarem-se, beijarem-se, tapinha nas costas, sorrisos, velhas histórias, sentimentos reprimidos, ilusões. Até agora não entendia o que tinha se tornado, nunca se vira como alguém, sentia-se estranho aos olhares, que ao passar parariam sem pudor, abismados cutucariam o próximo, comentariam as peripécias da natureza. Assim era ele, inusitado. Poderia ser descrito com uma ou rios de palavras, mas a água seria densa, daquelas que, ao mergulhar, soam como uma chicotada, uma bordoada da vida, com certeza machucariam, deixariam marcas, vergões, e ao chegar em casa a mulher perguntaria, aonde andaste? as explicações seriam inevitáveis, embora pouco plausíveis, com amigos, a mulher riria, seus pensamentos envoltos com rancor, seu gestos ficando mais e mais agressivos, seus sentimentos transbordando os limites da razão. Estouraria, vagabundo, diria, sem vergonha, puta, energúmeno, estúpida, impura, vaca louca. Daí, num segundo tudo mudaria, o que, antes, era amor transformaria-se em desgosto, ódio, sei lá. Os tapas soariam, cadeiras voando, a cor viscosa do sangue, os olhos furados pelas chaves de fenda do encanador. Assim era sua vida, marcada de fortes sensações, nunca passara desapercebido, e isso não o fazia feliz, não como aquelas pessoas que de tudo fazem para chamar a atenção, que pintam e bordam, gritam, pintam a bunda de vermelho, sobem o poste com uma melancia pendurada no pescoço, compram carros do ano, importados, mais caros que podem pagar, daí os juros, escravos dos bancos, andando além dos limites de velocidade impostos pelo governo hipócrita, que rouba sem pudor, daí as multas, o sentimento de escravidão, o sistema, que por mais liberdade que promete, mais a tira, e, depois de alguns meses de glória, os anos de desespero, as contas bloqueadas, sem sigilo bancário, os antigos amigos debandando em êxodo financeiro à procura de alguém mais próspero para se encostar, e os cabelos que antes andavam penteados com gumex, agora eram descabelados, desgrenhados pelos ventos da dívida, pelo furacão da inadimplência. Assim era ele, imperdoável, sentia desprezo pelos demais, que o olhavam com espanto. Olhou para aqueles dois amigos que acabavam de se abraçar, tirou o revólver da cintura e deu três tiros.

Zaracla

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