quinta-feira, 15 de novembro de 2007

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Através

sei lá,
tou estranho
tantas coisas, possibilidades
tanta antecipação do que possa acontecer
vivo num jogo de adivinhação e fatos

tento olhar pro passado e tirar lições da vida
tento pensar em ti sem estremecer
sem a tempestade de emoções que tua memória traz

tudo é tão raso, eu profundo e superficial
tudo tão obscuro
ou será que tá mais claro que parece?

vida vai, vida vem, vida passa
será que o destino errante
satisfará meu maior desejo
protagonista dos meus pensamentos?

viva em minha cabeça está você
teus trejeitos me encantam
e tua beleza é muito além do físico


Zaracla

eterno retorno

sonha
foge da solidão
renasce no risco
volta à música dos poetas
morre na praia da glória
vive a vida com devoção
pois no passado
o futuro se completa


Zaracla

domingo, 11 de novembro de 2007

Rituatempo

O que estou propondo, apesar de todas convergências, divergências e convexidades, é um ensaio. Um estudo, um paradigma-doxal. O que estou propondo, por mais insólito que possa parecer é um ritual. Um ritual sobre o tempo.

O tempo que se leva entre a ferida e a dor. O tempo que se espera para a espera acabar. O tempo que leva pra sentir-se o amor. 1, 2, 3, comecemos a contar. As sombras se movem em detrimento da visão. As luzes se apagam e as palavras são em vão. Os personagens já não representam nada. Podemos até dizer que os personagens são as palavras. O sentido se disfarça de quebra cabeça. As imagens não se encaixam, não se movem, apenas representam fragmentos. E cai a chuva na luz da razão, fazendo ruir o obscuro, fazendo correr a mil léguas o que acreditavamos ser visão. Tempo, tempo, tempo. Quebrando o sentido. Caindo as cadeiras do destino.

Vejo as estrelas o sol e as rugas. Sinto o vento e os passos da vida. Se há palavra é porque há o tempo. Se existimos, o que levaremos? Esse rito não mexe com a matéria. Mas com a anti-energia do tempo e o legado da sua miséria. O que quero com esse ato não é impressionar. É cair em parafusos, é saltar etapas invencíveis. O que proponho é a lingua desafiar o paladar. Os cachorros correm em bando. Os homem segue as massas. O tempo não.

Se ontem já passou, pra que esperar? Se agora eu falo, será que é por falar? Embora tenhamos a resposta, preferimos semear a dúvida. Só assim cada um pode encontrar as suas. No fundo do seu olho refletem essas imagens. No fundo do poço ainda resta água. Não há mais idéias. Carecemos de vida. Desconheço o amor. Mas amo tanto.

O que acontece se eu parar de pensar?
O que ouviríamos se eu parasse de falar?

Ouviriamos seu suspiro e talvez minha vergonha. Respiro de fumaça em passos de fogo. Quem é o autor de toda essa merda? Quem perdeu seu tempo sem ao menos acreditar nisso tudo? Declaro que nessa hora, nesse momento, agora aqui, nada existiu. Nada aconteceu. É a ilusão do tempo que fez de nós suas vítimas. Somos crianças e o tempo é avô. Somos público e o tempo é ator. Somos atores e o tempo é diretor. Quem diria que pagaríamos para fazer papel de palhaço. Quem acredita que pode levantar e ir embora?

Tempo, se permite, vamos acabar.

De começar. E começar.



Zaracla

sábado, 10 de novembro de 2007

Leitura para o inferno

Na esquina ao lado passava um carro de polícia, então era engraçado e até estranho que estivessem assaltando uma velhinha no meio da pequena praça Don Feliciano. Se bem que ela tava dando bandeira. Ainda mais que lá era um antigo ponto de tráfico. Além de playboys cagados, com o tráfico chegam as viciadas prostituídas, que trazem os bandidos cafetões e com certeza, mais cedo ou mais tarde, a bandidagem iria tomar conta da praça. Tomou. E ali estava a velhinha. Caminhando despreocupada com a bolsa cheia. Devia ser esclerose múltipla, que ataca todos os cantos do cérebro e transforma as pessoas em amebas. Mas na real até eu fiquei a fim de roubar a velhinha. Como os hôme estavam dobrando a esquina eu fiquei na minha, porque eu não sou chinelo, não. Esses otários assaltam por comida, status e pra próxima carreira de merda. Pobres animais. Eu assalto por prazer.

Os hôme dobraram a esquina e se mandaram, fazendo vista grossa aos berros iniciais, aos murmúrios que contam o meio dessa velha história, e a queda que foi um fim inesperado pros dois malandros viciados e brancos que deram um safanão na velha, arrancaram a bolsa e saíram correndo. Eu fui nessa e fiquei me perguntando se a velha tinha morrido ou o quê. Achando estranho que a polícia tinha se feito de peixe morto. E procurando uma oportunidade. Um dia me disseram que oportunidade é um gigante correndo pelado pela rua. Ele é careca, mas tem um moicano vermelho no meio da cabeça. Tu tem que pular muito alto e agarrar o chumaço de cabelo pra trazer o gigante pro chão. Eu achei que era papo. Mas a moral é ficar de olho aberto. Porque nessa profissão eu trabalho com o inesperado, em parceria com o acaso. Tudo pode acontecer. Alguns me chamam de moço, mas eu não tenho nome. A maioria cala com o medo. Eu tenho um três oitão. Meu método? O improviso.


Zaracla

Justiça

Ela vinha caminhando em minha direção. Alguma coisa em seu olhar. Algo de estranho, como pinceladas de decepção. Tentei decifrar seus sonhos, seus medos, sua angustia. Caí no lugar comum, nos meus próprios erros, me vi tateando a escuridão da incerteza, percorrendo um corredor sem final aparente, perseguido pelos fantasmas do arrependimento. Eu sabia que existia algo, que embora não soubesse identificar claramente, era a base de todo o relacionamento. Talvez isso tenha desgastado nosso elo. Talvez isso tenha apagado, com borracha, os traços incertos dos nossos sonhos. Deixei minha imaginação arquear suas asas. Deixei-a voar para o passado.

Aquele dia de ar carregado e gotas descompassadas saltou da massa disforme da minha memória e preencheu minha consciência. Lembrei das muitas possibilidades que qualquer movimento causava e, devagarinho, revivi as sensações. A cada momento eu entrava num transe mais profundo, o que levou o passado a ser presente. Senti pequenas náuseas e meu estômago começou a dar voltas inesperadas. Se eu soubesse não teria confiado. Se eu tivesse noção da fragilidade de quem confia, tudo teria sido diferente. É engraçado como a vida vai levando a ingenuidade aos poucos. Dia pós dia vejo meus sonhos se despirem de romantismo e mergulharem num lago petrificado, a realidade. E, com o impacto do choque, eles vão se deformando aos poucos, ganhando novas formas. A antiga beleza inocente, agora garras afiadas tentando agredir, como se o ataque fosse a única defesa.

É, existe algo que está entre todos os gestos interhumanos. Gotas brilhantes que se escondem, sendo lembradas por poucos.

Mas, se algum dia voltarem a lubrificar os entremeios dos nossos sentimentos, nesse dia, meus sonhos voltarão a sonhar.

Zaracla

Através

vem,
o novo nos espera
vamos fugir do que já era
vamos criar um mundo a parte

vem,
vamos brincar de esconde-esconde
vamos abrir o horizonte
através da nossa arte


Zaracla

Soldado de palavras

Eu sou um soldado
armado até a língua.

Minha artilharia é a gramática.

Meus tiros são de verbo,
eu metralho sem rima.

Meu escudo não têm métrica.

As palavras cospem fogo,
lançando chamas na imaginação.

Eu engulo o sangue
que nas tuas veias verbou.


Zaracla

Em caso de emergência

tenho tudo nada tenho
sinto muito, pouco sinto
entre os tragos de um cigarro
procuro a saída


Zaracla

Cadeira de balanço

meus livros
há muito mudaram seus títulos
reescreveram seus conteúdos
meus contos já não agradam aquele autor que olhava-os com orgulho

minhas calças já não se podem usar
pertencem às traças, duras de naftalina
minhas palavras já não tem o mesmo efeito
perderam-se em minha incapacidade de expressão
meus ouvidos, meus olhos
já não sentem o mundo como este era antes de mudar

hoje sou apenas uma lembrança
sem árvore, sem filho, sem o livro

que um dia me escreverá

Zaracla

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Pólvora

Eu sou um merda. Provavelmente a crise criativa de um artista possa levá-lo a uma fossa nunca imaginada por aquele não dado aos ofícios da arte. Como por ironia, a sala estava iluminada pelo azulado incandescente da TV. O que emprestava um frio imaginário para um verão de 39 graus, umidade relativa do ar de 18%. Se pensarmos com mais afinco, podemos enxergar os reflexos da televisão no rosto dele ao pegar lentamente o cigarro. Por capricho, seus dedos ignoraram o isqueiro, e, com toda a destreza, alcançaram a caixa de fósforos: usar o isqueiro naquele momento seria como comemorar. Além disso, os fósforos dão mais prazer. São quase um ritual: O batuque da caixinha. O suspense na hora de abri-la (Será que ainda resta um intacto?). A escolha do melhor palito. O movimento na hora de riscar no fósforo. Tssss. E a primeira tragada vinha com um sabor de pólvora que Mancada apreciava. Mancada? É, não estranhem o apelido. Na sua teoria de conclusão do curso de Física ele dissertou sobre as possibilidades de todos os grandes pensamentos geniais surgirem de ocasionais mancadas. O erro é necessário para as descobertas, então devemos buscá-lo, sem pensar em acertar. Murmúrios. Risadas jocosas. Pais indignados. Família constrangida. E naquele momento Alberto Cabral foi banido do mundo da física. Que pouca vergonha alguém discursar com sinceridade em uma conclusão de curso. Prestes a ser Físico. Cabral já tinha até sentido o cheiro de merda que a física acadêmica exalava, mas até agora nunca tinha pisado de pé descalço nela. Mole, quente e fedorenta. Foi-se a vocação, foi-se o interesse, mas o apelido ficou: Mancada.
Aos poucos, ele foi sumindo do convívio cotidiano. E, quanto mais se fechava em si, descobria que estava sendo perseguido por idéias. Um dia, uma delas se tornou real. E ele tinha feito isso com as próprias mãos. E foi assim que Alberto abriu espaço pro Mancada. Futuramente (Cuidado. Ele ainda não sabe.), vai se tornar um artista cultuado por um grupo de junkies, os Osvaldos. Imagine. Saber que aqueles trapos humanos um dia o idolatrarão destruiria a atmosfera melancólica do presente: Mancada fumando e sendo molhado pelo azul solitário da TV. O cigarro, por si só, já transmite uma amargura contida, como se fosse o inverso de um nenê mamando no seio da mãe. Talvez mamando no seio da morte. É. Talvez seu desejo de viver fosse igual ao seu desejo de morrer. O que era bom por dois motivos: o desejo de viver o levava a continuar vivendo e o desejo de morrer, o levava a criar. É claro que não era grande coisa que ele criava. Mas, pelo menos, na sua arte tinha uma digna originalidade disfarçada. Uma energia transformada em matéria com alguma abstração. Sei lá. Esses críticos merecem nossa dúvida. E foi por eles que Mancada procurou um psiquiatra: viciou-se em críticas. As escritas. No início, as das suas próprias obras. Depois, mergulhou numa piscina de palavras, opiniões e cuspe. Porque os críticos cospem quando falam e devem o fazer quando escrevem. É preciso manter distância, ou carregar discretamente um lencinho no bolso. No fim, já estava procurando revistas especializadas e, tamanha sua obsessão, não dormia mais. Mas não vamos mentir. Quando seu corpo já tinha virado um bagaço tão grande que os olhos não conseguiam mais discernir as palavras cuspidas por entre os dentes de um crítico chinelo, ele dormia sim. Era um sono culpado, não se sabe o porquê. Em vinte seções de dura análise, doutor Stravinski curou Mancada, que se dispôs novamente a criar. O que tudo isso quis dizer na verdade é que sua arte agradava. Embora maldito para os físicos, professores colegiais com grande poder de influenciar o senso comum, era admirado contidamente pelos junkies. E isso não podia vir a tona. Porque provavelmente seria a quantidade precisa de auto-apreciação, acabando com o equilíbrio entre o desejo pela vida e o desejo pela morte. Aí, a destreza no movimento dos dedos para pegar a caixa de fósforo se anularia, fazendo Mancada acender aquele cigarro com o isqueiro. E então, a primeira tragada já não teria gosto de pólvora queimando. Nem o gosto da maldição.



Zaracla

Miado canino

Ei, você, ele virou sem ao menos pensar, olhou em sua volta, com a alegria dos cães que abanam o rabo ao serem chamados, mas ninguém o chamava, viu duas pessoas, típicamente velhos amigos, abraçarem-se, beijarem-se, tapinha nas costas, sorrisos, velhas histórias, sentimentos reprimidos, ilusões. Até agora não entendia o que tinha se tornado, nunca se vira como alguém, sentia-se estranho aos olhares, que ao passar parariam sem pudor, abismados cutucariam o próximo, comentariam as peripécias da natureza. Assim era ele, inusitado. Poderia ser descrito com uma ou rios de palavras, mas a água seria densa, daquelas que, ao mergulhar, soam como uma chicotada, uma bordoada da vida, com certeza machucariam, deixariam marcas, vergões, e ao chegar em casa a mulher perguntaria, aonde andaste? as explicações seriam inevitáveis, embora pouco plausíveis, com amigos, a mulher riria, seus pensamentos envoltos com rancor, seu gestos ficando mais e mais agressivos, seus sentimentos transbordando os limites da razão. Estouraria, vagabundo, diria, sem vergonha, puta, energúmeno, estúpida, impura, vaca louca. Daí, num segundo tudo mudaria, o que, antes, era amor transformaria-se em desgosto, ódio, sei lá. Os tapas soariam, cadeiras voando, a cor viscosa do sangue, os olhos furados pelas chaves de fenda do encanador. Assim era sua vida, marcada de fortes sensações, nunca passara desapercebido, e isso não o fazia feliz, não como aquelas pessoas que de tudo fazem para chamar a atenção, que pintam e bordam, gritam, pintam a bunda de vermelho, sobem o poste com uma melancia pendurada no pescoço, compram carros do ano, importados, mais caros que podem pagar, daí os juros, escravos dos bancos, andando além dos limites de velocidade impostos pelo governo hipócrita, que rouba sem pudor, daí as multas, o sentimento de escravidão, o sistema, que por mais liberdade que promete, mais a tira, e, depois de alguns meses de glória, os anos de desespero, as contas bloqueadas, sem sigilo bancário, os antigos amigos debandando em êxodo financeiro à procura de alguém mais próspero para se encostar, e os cabelos que antes andavam penteados com gumex, agora eram descabelados, desgrenhados pelos ventos da dívida, pelo furacão da inadimplência. Assim era ele, imperdoável, sentia desprezo pelos demais, que o olhavam com espanto. Olhou para aqueles dois amigos que acabavam de se abraçar, tirou o revólver da cintura e deu três tiros.

Zaracla

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Esquina Cortada

Graice. Tati. Esmeralda. Val. Patrícia. Ale. Karina. Raquel. Não importava a cara que sua imaginação criava, eles queriam um corpo para vestir suas fantasias. Parada naquela esquina riscada por faróis, ela via a noite passar. Parece ontem, pensou vendo sua bolsa girar mais uma vez, pesada. Depois que outras como ela começaram a desaparecer num relance, ela trocou o perfume, a escova, as alças de silicone por pedras. Encheu a bolsa. A noite tem gosto de comida requentada, quente nas bordas, gelada nas garfadas mais fundas. Um carro pára. Um corpo disfarçado pelo reflexo se inclina e abre a janela, daquelas com manivela. Passos vacilantes. Cabelos voam, simulam o vento. Ela encosta na janela entreaberta. Álcool, sempre álcool. Nunca conseguia ver o futuro, o passado, o presente, sem aquele cheiro impregnado repugnante de álcool. Ardia as narinas, náusea. Então a pergunta. Pati. Dançava conforme a música. Afrodite, deusa do amor, ouviu com asco as palavras enroladas e cuspidas por entre dentes amarelos de cigarro. Olhos vermelho-insano. Pescoço enforcado por uma gravata sem nó. Afrodite lembra afro, negro, noite. A porta abre, entra, fecha. Pneus cantam a música arranhada do adeus.

Zaracla

Chuva

Nunca ninguém parou para pensar num desses dias molhados, porque a chuva não permite esses devaneios filosóficos. Mas é certo que as pessoas caminham cabisbaixas, talvez para desviar das poças. Um passo acidental certamente molharia os sapatos, encharcaria as meias e os pés, levaria as palavras aos tortuosos caminhos da indignação. Porra. Ou talvez porque os olhos poderiam molhar, confundir com lágrimas, chamar sentimentos há muito guardados, embaçariam, confundiriam os caminhos, plum, tropeçaria e daria de cara com o poste... No entanto, atrás daquele semblante triste, porque as aparências enganam, havia um sorriso contido, uma daquelas aventuras que a imaginação dá vida e vem habitar nossos pensamentos, mostrando os dentes de criança do sonhar, banguelas, sujos de chocolate, numa gargalhada sem início nem fim, daquelas que, geralmente, as pessoas em volta perguntam O que foi? e nada temos a dizer, porque a risada certamente se esvairia, sobrariam as desculpas esfarrapadas, aquelas que não convencem nem ao menos uma vó, que a vida fez caduca para ser enganada por tudo e todos, que perguntaria Que horas são? de tempo em tempo e a resposta seria sempre a mesma, Os dias são iguais, nem sei mais porque me preocupo com as horas, e antes mesmo de ouvir a resposta do neto mentirosos, que sempre diria Já é noite, a vovó, já cansada, desbotada pelo tempo, cairia no sono, deixando a carteira recheada de notas que não valem mais à mostra, e o netinho, tão inocente e desinteressado, que cuidava da vó só por prazer começaria sua festa, amarraria a velha, chamaria os amigos barra pesada, venderia o corpo da querida avó, e a senhora, que tão inocentemente fingia dormir, sorriria o riso disfarçados daqueles que tudo sabem, ficaria mole como uma plasta, seus gemidos baixinhos confundidos com as gargalhadas bêbadas dos moleques, que seriam a trilha sonora daquele filme da comédia da velhice, Meu netinho predileto, diria ela enlouquecida, as pernas balançando como nos bons tempos, maldizendo o velho vovô que nunca soubera satisfazê-la, abraçando o neto e dando meia duzias de notas antigas para comprar maconha, ou qualquer outra coisa ilegal, por que os dias são iguais... Ainda mais aqueles dias molhados e egoístas, que vem tirar a alegria daqueles que ainda tem alguma a viver, vem, na verdade, adiar os momentos alegres, pois diriam que A filosofia é o antônimo da felicidade, imaginem só, um filósofo, rindo, sendo ridicularizado pelos demais, falando de perguntas insolúveis com um riso no rosto, não. Não seria possível nem ao menos um olhar de esperança, um sentimento de vitória, Perdedor diria seu pai, e o filósofo, preocupado com o nada, com o tudo, que nada mais era que o nada transfigurado, molhado com chocolate, adoçado com vinho, flambado com mel. Não, diria ele enlouquecido, Mais uma dose, e a filosofia morreria naqueles dias chuvosos, sem cor nem respostas, perdidos nos sonhos...

Zaracla

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Poder

Eu disse que não tinha gostado de nada e eles quiseram saber o porquê.
Daí eu perdi um tempão tentando explicar pra eles que nada na vida tinha uma razão plausível. Tudo era feito inconscientemente para satisfazer a demanda dos fatos, a realidade é na verdade uma grande falsificadora de momentos, nos apressando e tirando previlégio de vivê-los sem a selvageria da inocência.

- Mas senhor eu respeito sua idade e sabedoria, mas, veja bem, eu vivo a quarenta e sete anos neste mundo e venho a pensar que a realidade é dura demais. Como o senhor diz que vivemos sem razão e sem discernimento dos fatos? Eu, que sempre me julguei lúcido - disse o homem sem ao menos pensar a respeito.

- A lucidez é uma das armas que a realidade em que vives. Ela usa suas artimanhas de mestre das ilusões para confundir o certo do errado e para te jogar a poção do sono - respondi.

E ninguém mais foi visto caminhando pelas redondezas daquela vizinhança pálida, onde os carros não passavam e não existia diferença entre o dia e a noite. Todos viviam sem saber o porque e todos acreditavam em suas convicções de plástico. E, cedo, nos tombos dos primeiros passos, no som das primeiras palavras, nas curvas do beabá, aprendiam a tapear suas consciências com a imagem de felicidade alcançada, escondendo os verdadeiros desejos e sentimentos de um ser desprendido de padrões, voando livre pelos ares do mundo, nadando no oceano da vida.

Levanta-te e anda. Tudo podes.

Zaracla

Tic Tac

Esperava contando inconscientemente o tic-tac do antigo relógio despertador. O som tomava formas e o passado atingia seu estado de consciência imediata como num devaneio dos incansáveis dias sem dormir. Algo estava prestes a acontecer, era evidente. Em cada passo, em cada movimento do jogo da vida, em cada aroma das ruas pálidas de inverno, em cada assovio, o vento trazia as notícias dum amanhã incerto, mas as dúvidas o faziam sentir-se vivo. Entre uma e outra piscadela de seus olhos desbotados via as faces de uma realidade vidrada pelas sombras. E a realidade permanecia escondida em algum canto da imaginação. Sua atenção pulou da janela de seu mundo interior para o quarto, cada canto, cada quadro, as fotos na parede fria, as roupas jogadas pelo chão ganhavam significados nunca realmente claros, mas vivos em seu sábio inconsciente. Com um sorriso avistou, lá no horizonte, um dos seus sonhos, um dos tantos que corriam muito mais rápido que podia alcançar. Na velocidade das estrelas cadentes, seu pensamento atingiu o ápice da criação, trazendo um novo desejo fresquinho saído de um ou mais sentidos insatisfeitos. O desejo era sem forma e vazio, mas ganhou vida e alma em sua cabeça adestrada. Não se chamava mais Zaracla, mas sim alguém que cultuava um desejo inadiável, que moveria o mundo para ver as cores das sensações de conquista que tudo aquilo traria.
Depois de algumas tentativas percebeu que nada o satisfaria. Viu que a profundeza dos livros traria o vazio do abismo que se tornara sua alma. Comunicar só traria a incapacidade de compreensão e não achou ninguém que se preocupasse o bastante com suas idéias. Fundou seu próprio clube e foi criando amigos imaginários, dando nomes, rostos e características. Churrascos no fim de semana, poker nas terças à noite, tudo isso para ouvir suas histórias. Z, o sábio. Zaracla, o místico. Pablo, o indecifrável, murmuravam as multidões e todos viravam ao vê-lo passar, ora para admirá-lo, ora para invejá-lo. Taxado de louco, temido como profeta, mas todos tinham alguma palavra abstrata, que nada daquilo significava, eram apenas uma fuga ao incompreendido, uma interpretação ao inexistente, como se o novo nunca pudesse ganhar novos significados, como se tudo vestisse a velha roupa dos conceitos e nunca mais voltasse a ser como foi, desprendido de padrões, vivo por viver, esperando cada novo passo do acaso, que olha sob as grossas sombrancelhas, calculista, esperando o melhor momento para mostrar seus dentes de leite e dar seu sorriso irremediável.
Mais um dia se passa na antiga fábrica de sonhos, menos um dia se passará. Mais uma palavra, mais um momento, mais uma sensação nos meus sentimentos sensíveis. As lágrimas transbordam meus olhos, não sei ao certo, dúvida ou razão? O relógio se adapta às batidas descompassadas do seu coração e ele abre os olhos para sua imagem naquele espelho encantado, na verdade um mestre das ilusões que mostrava a cada dia um novo personagem desse filme intrigante de final manjado, dessa experiência intensa e subconsciente, a vida.


Zaracla, 24 de Setembro de 2000.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Sustenido

Ele saltitava embaixo do chuveiro
As gotas paradas no ar
Então caíram,
Respingando ao encontrar a lousa.

Na melodia desafinada
Percebeu-se que não era choque.
Era apenas,
Frio.

O PINGUIM

O que é aquilo em cima da geladeira?

É um pinguim.

Ele não sente frio?

Não, ele é de plástico.

FLU: A VEZ DO BRASIL



Fazer aniversário é foda. O dia em que o cara nasceu. Plum! estou aqui... Luz, tapa e atmosfera. Parece que todas as festas de aniversário do mundo são para compensar o tapa. Todo mundo é especial para os seus. Todos temos qualidades únicas. Somos todos messias de alguma forma.
O Flu então, é um cara especial. Foi ele que disse "roubem" com seu olhar malaco, no início desse vídeo. Nesse mesmo dia em que gravamos esse clipe, era seu aniversário.

Esse é um presente que preparei pra ele, esperando que o significado fosse tão especial como o momento em que gravamos essa brincadeira.

É engraçado: os ladrões, em reverse, parecem sambar.

Abraços
Zaracla

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

LOURIVAL COMPRA A VERDADE

PRÓLOGO
Tava distante o Lourival. Andando no centro entre tanta gente e não vendo nada. Na zona onde morava era conhecido como um desligado sem conserto. Certa vez foi assaltado e nem ao menos percebeu. “Fizeram de tudo”, diziam as línguas mais apimentadas. Foi no bar do Brutus e bebeu pra mais que as contas. Tava alto quando disse:
- Fecha aí.
Chega o Brutus com a quantia anotada em um papel. Larga a conta na mesa. Lourival pega a dolorosa. Engole em seco. “Me passei”. A carteira no bolso, a mão descendo. Puta. Cade a carteira? E todo mundo sabe que o Brutus não faz fiado nem pra mãe dele. E que o apelido também não era de graça. O Brutus lambeu os beiços.
E lá no centro, mais um entre tantos transeuntes, um velho, o seu Gilberto, que não conhecia o Lourival passou por ele e pensou: esse tá noutra. O desapego à matéria do sujeito era tal que o fazia estar somente com o corpo nesse mundo. Foi no centro da cidade, no meio das barraquinhas dos camelôs, que entre o seu palpável nada, Lourival ouviu o grito:
- Olha a verdade. A última unidade do maior bem do mundo.
Lourival, como que entrando nos encantos de uma magia, acordou. Seus olhos brilham e focam o vendedor: Um negro muito magro, com poucos dentes e olhar agudo. Lourival pergunta:
- Quanto custa?

REVELAÇÃO
O negro toma um susto. Nunca ninguém acreditara no seu negócio. Uma vez, quando ainda era um negão, jovem e forte, trabalhava nas docas e namoricava Rosinha, comprou a verdade de um velho cego. Achou que era um bom negócio. Foi tudo muito legal, tudo muito bem. Até descobrir que tinha se tornado um escravo dela, a verdade. Virou um chato. Perdeu o emprego, as mulheres e então os amigos.
De repente se pegou invejando aqueles que mentem. Descobriu que só eles, os mentirosos, podiam reinventar a existência. Eram livres para ser o que bem entendiam. Passou a vida inteira tentando vender a verdade, passar aquele carma para algum desavisado. Nunca ninguém acreditou. E o preço era salgado mesmo:
- Quinhentos contos.

Lourival admirou o negro por um momento. O Dono da Verdade. Com certeza o preço não permitia pechincha. Era pegar ou largar. Fez as contas mentalmente. Desligado sim. Burro nunca. Todos diziam que o Lourival era imprestável, um incapaz. Mas não pense que ele não roubava lentamente a sua velha mãe. Eram trinta pilas toda a semana. Já fazia tempo que ele tirava do dinheiro dos remédios da dona Inês e guardava numa lata de sorvete na geladeira. Lá em cima, onde a velhota já não alcançava. Mas a quantia ainda não era suficiente:
- Fechado.
Até mesmo Lourival se surpreendeu com sua resposta. Então o negro sorriu com seus poucos dentes e falou inflamado de segurança:
- Amanhã, às dez da manhã, nesse mesmo lugar.
E agora, o que faria pra conseguir a grana que faltava? Puro pseudo-teatro. No fundo já sabia. Conhecia a rotina da velha. Engraçado: não é que Lourival de desligado não tem nada? Roubou a “velhota”, como gostava de chamar. Riu ao pensar no pavor da pobre dona Inês ao chegar na farmácia, abrir a bolsa e perceber: O dinheiro sumiu!

MANHÃ SEGUINTE
Todos conhecem os camelôs. Toda cidade tem os seus, concentrados em algum canto do centro. Qual empregada doméstica que se preze não se tranca na cozinha chorando e ouvindo a Palavra da Fé, enquanto lava as louças? Em um radinho a pilhas comprado, é claro, nas bandas do camelô. O que Lourival e o negro dono da verdade pareciam não conhecer era a dinâmica dos mercados informais. Então quando batiam os sinos anunciando a missa, Lourival pensou: quase dez horas. Apertou o passo e avistou o camelô. Chegando ao local combinado percebeu, então, que não era o mesmo lugar. Tudo mudara. Todas as referências espacias tinham escambado de lugar. As cores eram outras. Estava perdido. O que ele e o Dono da Verdade não varam em conta é que ali estava um mundo sem mapa. Um cenário que mudava dia pós dia. “Nômades”, pensou. “Querem me boicotar!”. Levantou a cabeça, irredutível. Quem olhava percebia que aquele homem procurava algo. Já era quase dez da manhã e nada. Dez horas. Dez e cinco. Dez e quinze. Ele esperou até desistir. Tava bom demais mesmo… Nunca experimentaria o gosto da verdade. Morreria sem ver as cabeças balançando e os beiços contraídos em ar de aprovação. Foi embora cabisbaixo, perdendo-se progressivamente em seu mundo.
Foi quando esbarrou em um homem negro.
- Já desistiu?
Lourival olhou para o negro com surpresa. Será que era ele? Estava diferente. Devia ser a dentadura. Mas também o terno bem cortado, daqueles de domingo.
- É você?
- O Dono da Verdade.
- Te procurei em tudo que é canto desse camelô e não teve jeito de te encontrar.
- Eu tava bem aqui. Te esperando.
- E como tu sabia?
- Tu já vai saber. Trouxe o dinheiro?
Lourival quase não conseguia conter sua excitação. Estava prestes a ser o Dono da Verdade. Ele, que nunca tinha sido levado a sério. Que nunca fora ouvido. Que era um imprestável… teria a sua vingança. E todos sabem que a verdade dói. Sim. Ele, que era um debilóide menosprezado por quem quer que o cercava, teria agora uma opinião. Saberia segredos, pontos fracos. Poderia até descrever o futuro. O que ele falasse seria a verdade. Sem ressalvas. Sem contradições. Se deliciava imaginando as pessoas caminhando nas palmas das suas mãos:
- Tá aqui.
Lourival tira o dinheiro do bolso.
- Quinhentos contos?
- Quinhentos contos.
O negro conta o dinheiro, sentindo no tato o papel áspero das notas. Olha pra Lourival. Olha para o dinheiro. Acende um cigarro. Lourival espera impaciente. O negro dá uns tragos no cigarro e então crava a brasa acesa nas costas da mão de Lourival.

VERDADE
Lourival acordou com um menino gritando.
- Mamãe, também quero ver o morto.
Tinha um monte de gente olhando pra ele com fascínio serial killer. Os raios de sol passavam por entre as pessoas, ganhando forma. Então, radiando com aquela luz de cinema, acordou Lourival. Desmaira com a dor e o negro, logo mentiu: "Não fui eu", deu uma risada e saiu de fininho. Todos que estavam ali, apavorados e deslumbrados com o morto, fizeram um oh! Morto nada. Lourival levantou, envolto daquela luz bonita entre toda aquela gente admirada. Enquanto tirava o cigarro já apagado das costas de sua mão, ainda cego pela claridade, pensou em voz alta e imponenente: “Eu sou o Dono da Verdade”.

MANHÃ SEGUINTE (parte 2)
A Vizinha de Lourival, dona Olga, velha fofoqueira que dividia seu tempo entre o bingo e as rodas de canastra a dinheiro, vinha notando um movimento diferente na rua:
- Tem que estar acontecendo alguma coisa na casa da dona Inês. Aí tem! - Comentava chuleando uma boa fofoca.
Isso foi bem na época que surgiu o boato que dona Inês, a mãe do Lourival, estava enlouquecendo. O que realmente tinha uma boa probabilidade de acontecer. Aquele dia em que Lourival comprou a verdade, ela não comprou seus remédios. Chegou na farmácia e, por sorte ou azar, no momento em que ia entrar, viu que dona Olga passava pelo outro lado da rua, liderando sua corja de velhas para uma longa tarde de pastéis, café e especulações no Anfeta Bingo. Dona Inês não resistiu, esqueceu o poder terapêutico dos medicamentos e se juntou com as outras velhas. Ninguém conseguia entender, mas aquele bingo tinha alguma coisa bem louca. Bastavam alguns cafézinhos para senhoras de respeito estarem rindo de piadas sem graça, falando sem parar e aumentando seus lances no jogo. Dona Olga já recomendava:
- Em dia de bingo, cola dupla na dentadura.
Realmente a velha Inês estava mais empolgada. Talvez tivesse encontrado o que tanto procurava: um sentido para a vida. Naquele momento tudo o que importava eram os desenhos que fazia no seu cartão de apostas com os grãos de feijão. No meio da conversa eufórica das velhas, dona Olga encosta o indicador nos lábios e faz “ssss”. Como num concerto, surgiu o silêncio entrecortado pelo som das bolas numeradas girando e as dentaduras batendo. Foi no meio desta tensão densa que Dona Inês explodiu:
- Bingo!
Todos olham para ela. As velhas ao redor tentam conter suas risadas, mas quando Oliver Mc Green, ex-galã de telenovela e atual apresentador do Anfeta Bingo aponta para dona Inês e a ridiculariza com uma risada escancarada, todas as velhas perdem o pudor e caem na gargalhada. Uma delas exagerou tanto na dose que chegou a cospir a dentadura.
- Viste? Cola dupla. - Advertiu dona Olga, voltando a rir.

VOLTA POR CIMA
Quem encontrava, ou mesmo passava os olhos desapercebidos por Lourival, não dizia que era a mesma pessoa. Tinha alguma coisa no seu olhar. Era uma certeza, uma segurança crua que assustava os velhos conhecidos e impressionava quem estava por conhecer. Não demorou muito e todos já comentavam:
- O Lourival, hein?
- Se revelou.
-É um profeta.
Com efeito, do dia para a noite o rapaz se transformou. Passou a ser visto em compania das mulheres mais bonitas do pedaço. O passo gingado. O braço dado com a moça. Varava a madrugada nos botecos à beira mar, fazendo dinheiro grosso aplicando pequenos golpes e jogando bilhar. Passava brilhantina no cabelo e chegou até a pegar dinheiro de mulher. Chegaram até a dizer que o psicólogo das redondezas, doutor Vladimir Shunermann, estava interessado em estudar o caso.

ENCLAUSURAMENTO
Depois daquele dia no bingo a dona Inês nunca mais saiu de casa. Realmente enlouqueceu. Por pura conhecidência ou azar, Luci, a enfermeira que Lourival contratou para cuidar da sua pobre mãe, eventualmente fazia faxina na casa da dona Olga, a velha lider dos exageros no bingo, agora arqui-inimiga de dona Inês. Nas madrugadas mais escuras podia-se ouvir as duas velhas fazendo guerra de cebolas. Dona Olga pagava mais que a tabela só para ouvir deliciada Luci relatar as conversas de dona Inês e as paredes.

EPÍLOGO
Lourival por sua vez, no auge da sua nova e indiscutível malandragem, tava todo bacana caminhando no centro, falando verdades inconstestáveis que maravilhavam os transeuntes que o seguiam em bando. Enquanto fazia seus milagres, Lourival conseguia, ainda, assoviar para as mulatas vistosas, posar para fotos, dar entrevistas para rádios, olhar as vitrines, quando um frio percorre sua espinha e congela seu pensamento. Ele tenta olhar através do vidro para dentro da loja, mas seu olho não responde aos comandos do seu cérebro. Nesse momento Lourival percebe que não importa. Apesar de tudo saber, tudo o que ele consegue ver é o seu próprio reflexo.


Zaracla

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Náufrago MTV 3

Náufrago MTV 2

Náufrago MTV 1



"Naufragar: Ir ao fundo; Desaparecer, extinguir-se: O sol naufragava, soçoborando num oceano de fogo e sangue. Nessa interpretação naufragaram os mestres."

Eu quase naufraguei uma vez. Tinha 11 anos e resolvi, junto com meu irmão, pegar um pequeno veleiro e dar uma volta. Ele tinha 13. Estávamos numa ilha, no meio do rio Guaiba, em Porto Alegre. Colocamos o veleiro na água e saimos, com nossos supostos conhecimentos de navegação. À 400 metros do velho trapiche de madeira (parece agora), o vento vira. A vela derruba, num ímpeto brusco, meu irmão. Quando o corpo dele encontrou a água, notamos que a correnteza estava furiosa. Uns poucos momentos depois, naquele mesmo dia, eu salvaria sua vida.

Concebi essa trilogia como uma provável história do que aconteceria, se eu não tivesse jogado o colete salva-vidas para ele nadar, com ofegante dificuldade, contra a corrente e à favor de sua vida.

Um abraço,
Zaracla

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

electrodream



O telefone toca. Eram meus amigos Farinha e Cla. Silêncio. Aí, gritos. Um falava uma palavra, passava o telefone para o outro, uma frase solta. o Farinha começou a cantar "love me tender". Suco de Nonsense. Dois dias depois, o sentido prendeu. Como uma chave que cai no chão e faz "plim", eles estavam produzindo um puta evento pra Nokia e queriam que eu fizesse um curta, filmado com o então lançamento N 93, que tem uma câmera foda.

O problema: eu podia fazer qualquer coisa que quisesse. Caramba. Quero fazer tanta coisa.... difícil decidir qual quero mais. Fiquei horas pensando, atrevi a mexer no meu arquivo de idéias antigas e quase obsoletas, e lembrei duma história que eu contava pra mim mesmo de um toca-discos abandonado. Drama de objetos é sempre legal. Humanizar coisas faz parte de encontrar a máquina que nos engana que somos humanos. Aí pensei na analogia com o que tá acontecendo no momento.

Conclusão: O sonho de um robô é ser humano assim como o sonho do digital é soar análogo.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

i



Fazer sinopses é uma das coisas mais difíceis que existem. Resumir é foda. Gosto de tudo inteiro, sem metades, sem parcelas. Comprar à vista. Virar o copo. Dormir em pé pra acordar sentado. Tentar suicídio pra aprender a voar. Então. Sinopses. Porque tudo na vida tem que ter uma short line? Um rótulo? "Se é pra simplificar, que seja uma obra em si", diria meu lado idealista. "Resolve aí, meu", diz o eu-prático. Opa. É justamente sobre isso que esse filme fala. Sobre dualidade. Se toda moeda tem sua cara, toda cara tem sua coroa. Tornaria-nos isso reis? Sei lá.

Sinopse: Fuga em si.

Eu tinha essa idéia de um curta em que um cara que se tornava dois. Imaginava o id de um indivíduo separando-se do superego e saindo correndo por aí, fugindo em busca da sua liberdade. Esse foi o primeiro filme que revelou os resultados da minha busca obsessiva por um estilo estético. Gosto de simetria, de composições áureas. Eu posso dizer que sou um neo-renascentista (se é que isso existe). É, talvez o Da Vinci não concordaria.

Então, tá aí o filme, que teve um puta apoio de toda equipe da Zeppelin Filmes (www.zeppelin.com.br).

Zaracla